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A bola da vez

junho 21, 2010


A Copa do Mundo de futebol é um grande evento e, de quatro em quatro anos, centraliza as atenções em torno de um objeto: a bola! Castanhas, brancas, laranjas e até amarelas, elas desfilaram ao longo de 18 Copas esbanjando estilo. As grandes estrelas não passam despercebidas com seus modelos cada vez mais curiosos. As mais antigas eram feitas de material duro e pesado, mas apresentavam costura fraca e até chegavam a rasgar no meio dos jogos. Para a Copa do Mundo 2010, a bola passou por grandes mudanças. Pesando aproximadamente 440 gramas, com 69 centímetros de circunferência, ela agora tem oito gomos e é alvo de muitas controvérsias. A África do Sul apresenta, neste mundial, a Jabulani.

• Diferencial tecnológico

Desenvolvida na Universidade de Loughborough, na Inglaterra, ela é confeccionada com poliuretano termoplástico (TPU), um material forte e leve, que possibilita uma combinação de resistência e flexibilidade. O novo design é constituído de oito gomos tridimensionais, moldes esféricos que dão à bola um formato perfeitamente cilíndrico. Além disso, em lugar dos catorze da bola da última Copa, os oito gomos da Jabulani possibilitam a redução das fendas. As porções esféricas são unidas termicamente, dispensando a costura – mesmo interna.

Um novo método também garantiu à superfície de sulcos uma textura que, segundo os criadores, assegura maior aderência, melhor domínio e trajetória estável no ar. Isso se deve às ranhuras integradas em círculos, as quais contornam toda a superfície da bola. A tecnologia desenvolvida para aperfeiçoar a aerodinâmica foi denominada de GripnGroove.

Durante quatro anos, a partir da Copa de 2006, a Jabulani foi submetida a testes e aprimorada. As primeiras experiências ocorreram com robôs, que reproduziram faltas, passes, lançamentos e até cobranças de tiro de meta. Um túnel de vento também foi utilizado para desenhar a bola e garantir sua aerodinâmica. Além disso, antes de ser colocada no mercado, ela foi testada por dezenas de jogadores e atletas. Os resultados, de acordo com os pesquisadores da universidade britânica, mostraram que a bola percorria o ar de forma mais consistente e previsível.

• Enxurrada de críticas

O nome Jabulani significa “celebração” ou ainda, dependendo de onde for obtida a informação, quer dizer “levando a alegria para todos”. Mas não é isso que alegam os jogadores. Eles levam a discussão para os campos e atacam o novo produto. Para muitos dos insatisfeitos, o problema é que a bola não pára no pé do jogador e não toma a trajetória correta na hora do chute ou do cabeceio. De acordo com eles, sua excessiva leveza tornaria o trajeto irregular e dificultaria o controle.

A polêmica vai dos gramados aos grandes laboratórios do mundo. A conclusão de um estudo científico australiano confirma a suspeita de muitos jogadores. A pesquisa da Universidade de Adelaide, desenvolvida por Derek Leinweber, diz que a Jabulani é efetivamente mais rápida e difícil de controlar. De acordo com o diretor do  Departamento de Física e Química da Universidade, ela é capaz de sustentar o vôo por mais tempo em altas velocidades, mas, ao final da trajetória, a curvatura é maior do que de suas antecessoras, o que pode surpreender os goleiros preparados para receber a bola em determinado canto do gol. Contudo, ao ser questionado se essas condições poderiam influenciar o resultado de uma partida, o pesquisador diz estar incerto, mas acredita que não.

O Departamento de Tecnologia do Esporte na Universidade de Loughborough contra-ataca. O cientista Andy Harland defende sua criação e explica que essa reação negativa, em grande parte, se deve às diferenças de altitude. Para ele, a Jabulani, que está no mercado desde o final do ano passado, havia recebido poucas críticas até então. O que ocorre é que agora os jogadores estão treinando na África do Sul, nos campos onde as seleções atuarão, os quais estão localizados em elevadas altitudes. O resultado é que, nessas alturas, a bola é mesmo mais rápida. Mas, segundo Andy, esse não é um problema da Jabulani, qualquer bola tem um comportamento similar.

• Os efeitos de tanta repercussão

Diante de tanto debate, não poderiam deixar de ser observados os reflexos na venda dos exemplares da tão falada Jabulani, ora bolas. Leonardo Pereira Ribeiro, que trabalha em uma rede de lojas de artigos esportivos, conta que, para persuadir o seu cliente, ele relata as novidades tecnológicas do produto, mas isso nem sempre funciona: “Alguns se convencem, outros não. Eu acho que os comentários negativos dos jogadores na mídia acabaram influenciando as pessoas, tanto é que poucas manifestam interesse pela bola da Copa. Elas preferem outros modelos”. O vendedor afirma ainda que grande parte do público que procura a Jabulani têm sido as crianças, que, possivelmente, foram menos influenciadas pela repercussão dos depoimentos nos meios de comunicação.

Leonardo diz que o nível de insatisfação de compra da Jabulani é grande: “Quatro em cada dez clientes retornam à loja para trocar o produto”. Um importante fator que também influencia nas vendas é o preço. A réplica custa R$ 49,90, ao passo que o modelo genuíno chega a R$ 399,00. O preço elevado faz com que a bola original tenha pouca saída. Na loja em que trabalha Leonardo, por exemplo, não foi vendido nenhum exemplar.

• E o que diz a população?

A Jabulani está no centro de muitas discussões e comentários. No site de relacionamentos Orkut, são mais de mil resultados de busca para “Jabulani” e 243 comunidades relacionadas ao assunto. Dentre elas, a maior, que possui 19.232 membros, é denominada “Jabulani – A bola Sobrenatural”. Nesta, em especial, é curioso perceber como a maioria dos participantes aprova o produto, diferentemente do que tem ocorrido entre os jogadores. Assim como boa parte daqueles que estão na comunidade, Klaus Willians Conte, estudante que adquiriu uma  réplica da bola da Copa, a aprova: “A bola é excelente. Pra mim, que sou quem faz os lançamentos e passes mais compridos, é perfeita. Talvez os goleiros e os centroavantes, que tem que fazer pivô, não gostem tanto”. O estudante afirma que ela é muito rápida e oscila mais que as outras nos chutes mais fortes. E acrescenta: “Deve ter sim alguma influência aerodinâmica, porque até o garoto mais magrinho, sacaneado pelo chute fraco, conseguia botar uma certa força na bola”.

A polêmica dividiu opiniões entre os amantes da bola de todo o mundo. Há aqueles que a desejam, outros a odeiam. Há ainda quem a culpe pela falta de gols ou, ao contrário, quem acredite que atribuir culpa à bola é somente uma desculpa para a falta de habilidade dos jogadores. Alguns, indecisos, ainda não sabem dizer ao certo: Será que a culpa é da Jabulani? O fato é que, bem ou mal, falam dela. Jabulani é a bola da vez.