Arquivo para novembro 2009

Do orgânico ao cibernético

novembro 25, 2009

Projeto Corpo Zona de Invenção integra percepções fisiológicas e corporais a formas de registro em áudio visual, celular ou câmera digital compacta são os instrumentos técnicos. “Tentando transmitir algo que a princípio é intrasmitível, que é a sua experiência pessoal, intransferível em relação ao espaço em que você vive…” Cinthia Mendonça.

Quem se coloca nesse desafio de experimentação é Cinthia Mendonça, com formação em artes cênicas e dança, inspirada por Hélio Oiticica. A artista desenvolve o projeto juntamente com Bruno Viana, no âmbito do Marginalia Lab, que funciona como um laboratório de incentivo e apoio a projetos experimentais relacionados com inovações tecnológicas e estéticas.

Um pouco sobre Hélio Oiticica

Não é inteligível falar sobre o Corpo Zona de Invenção sem nos referirmos a Hélio Oiticica.  Ele foi um artista plástico inovador e revolucionário para sua época e possivelmente até para os dias atuais. Seus trabalhos artísticos foram feitos entre as décadas de 1960 e 70. Os penetráveis e parangolés são expressões de sua criação e experimentação descontraída, perecível, intensa. Ele merece uma matéria completa, mas por hora ficam umas indicações de leitura sobre o artista.

FAVARETTO, Celso. A Invenção de Hélio Oiticica. São Paulo: EDUSP, 1992.

CATÁLOGO: Hélio Oiticica. Centro de Arte Hélio Oiticia. Rio de Janeiro; Galerie nationele du Jeu de Paume, Paris.

OITICICA, Hélio Oiticia & CLARCK, Lygia. Cartas: 1964-74. Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ, 1898.

OITICICA, Hélio. Aspiro ao grande labirinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

JUSTINO, José Maria. Seja Marginal, Seja Herói: modernidade e pós-modernidade em Hélio Oiticia. Curitiba: Ed. da UFPR, 1998.. Rio de Janeiro: relume-Dumará, 1996.

SALOMÃO, Wally. Hélio Oiticia: qual é o parangolé

Abstrações

A proposta com a qual Cinthia trabalha pode parecer muito abstrata em um primeiro contato. Ela é orientada pela antiarte, despreocupação para com padrões estéticos e valorização do expoente criativo de cada ser. O rompimento com formatações intelectuais e vivencia de novas experiências são propostas desses artistas, que valorizam a ação e o sujeito criativo.

A posição de espectador passivo, mero consumidor, não faz sentido nesse pensamento artísitco-cotidiano, que foi corajosamente defendido por Oiticica. O público é visto como criador. Nas palavras de Oiticica: , “o objetivo é dar ao público a chance de deixar de ser público espectador, de fora, para participante na atividade criadora“.

Parangolé-olho

Existem várias formas de materializar essas abstrações, a escolhida no Projeto Corpo Zona de Invenção é o parangolé-olho. Filho do samba e da genialidade de Oiticica o paragngolé pode ser entendido como uma experiência artística na qual o corpo é parte da obra e não um mero abrigo. Ele é uma espécie de apropriação da idéia original do Parangolé de Oiticica. Mantém-se o corpo como parte componente da obra e, simultaneamente, abre-se a novidades experiênciais e aos meios alternativos de produção de conteúdo informativo e de entretenimento.

É assim que a arte se preserva dinâmica com novas vozes e desafios. A interligação entre o orgânico e o cibernético é progressiva. A provocação é lançada e cada um experimenta essa sensação intransmitível de que fala Cinthia no início desse texto.

Links interessantes:

http://www.marginaliaproject.com/lab/

Site oficial do projeto Marginalia Lab. O site traz informações sobre os projetos experimentais que desenvolve, eventos, workshops.

http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/helio-oiticia/helio-oiticia-1.php

Portal São Francisco. O site traz diversas biografias, dentre elas a de Hélio Oiticica.

http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=856

O colunista Jardel Dias Cavalcanti escreveu um artigo sobre o Parangolé e seu autor.

http://www.vimeo.com/6756514

Conta da artista Cinthia Mendonça no vimeo. Três vídeos mostram um pouco das experimentações realizadas por ela e amigos.

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Arte.mov – Mostra Competitiva e a produção com mídias móveis

novembro 25, 2009

Uma câmera (ou celular , handycam, notebook, palmtop…) na mão e uma (ótima) ideia na cabeça

Dziga Vertov ficaria feliz diante das múltiplas possibilidades de “ver” o mundo oferecidas pelas mídias móveis. A mobilidade permite a produção em qualquer hora e lugar. Sendo assim, é possível captar o instantâneo e o efêmero; congelar cenas que jamais se repetiriam – e que dificilmente esperariam você montar todo o aparato tradicional de filmagem.

Além disso, as mídias móveis consentem um processo criativo espontâneo e experimental. A facilidade de gravação permite colocar em prática, rapidamente, todas as suas idéias – por mais exóticas ou toscas que sejam. Quem sabe desse processo não nasça um bom vídeo?

Provavelmente muitos dos 47 vídeos classificados para a Mostra Competitiva do 4° Arte.mov surgiram de experimentações aparentemente descabidas, mas que depois revelaram-se ótimos trabalhos (inclusive ricos técnica e plasticamente).

Espelho do cenário audiovisual brasileiro, a mostra competitiva contou com vídeos de diversos formatos, desde os que exploram o humor, como Confusão dos Infernos até os que primam pela estética, como o grande vencedor Following the light.

Diante da grande variedade formatos, temas e até mesmo de perfis das pessoas inscritas na competição, é possível pensar que as mídias móveis trazem mais um benefício. Esse seria a abertura do “mundo” da produção audiovisual, que aos poucos deixa de ser um clube fechado, já que o domínio das técnicas e a possessão dos meios audiovisuais tornam-se cada dia menos restritos à “burguesia”. E o Arte.mov mostrou-se receptivo a essa tendência. Muitos dos vídeos da Mostra Competitiva foram produzidos por iniciantes nas artes visuais, que se valeram das facilidades trazidas pelas mídias móveis para concretizar as (ótimas) idéias que tinham na cabeça.

E bons trabalhos, como o Projeção de Bolso – que recebeu menção honrosa-, são frutos de experimentações feitas por “principiantes”. Confira abaixo a entrevista com Laura Daviña e Roberta Guedes (diretoras desse audiovisual) e conheça o processo de produção do vídeo.

A Stereoscopic Show

novembro 25, 2009

Quem esteve presente na penúltima noite do 4°Arte.mov pôde conferir um show estereoscópico  da banda francesa retro-futurista Principles of Geometry, em colaboração com o selo visual AntiVJ. Ok, eu sei que é muita informação para ser absorvida. Não sei vocês, mas quando ouvi falar do show, logo pensei : “nuhh, deve ser muito doido”. Mas minhas considerações pararam por ai, afinal, não entendia bulhufas o que seria uma banda retro-futurista e pouco conhecia sobre selos visuais e estereoscopia. Diante de tantos nomes e termos, nada melhor que recorrer ao querido Google. E depois de um pesquisa básica, posso compartilhar com vocês minhas descobertas.

Para mim, o retro-futurismo se limitava ao retorno atual dos elementos visuais criados entre as décadas de 1920 e 1960, que faziam alusão ao cibernético futuro que nos aguardava – permeado por naves espaciais, robôs e coisas platinadas. Entretanto, a música retro-futurista agrega outros elementos de meados do século XX: no caso de Principles of Geometry, ocorre a apropriação da estética sonora-eletrônica dos anos 70 (cheia de sintetizadores) e de trilhas cinematográficas para gerar uma sonoridade “futurista”. O resultado é uma música eletrônica que alterna timbres, entre o “épico e o lânguido”.  

Essa jornada futurista criada pela banda casa perfeitamente com as projeções estereoscópicas feitas pelos AntiVJ.  O selo, criado em 2006,  trabalha com projeções de luz e holográficas nos mais variados substratos: desde construções poligonais até fachadas de prédios e catedrais.O mais novo projeto dos AntiVJ são as projeções estereoscópicas. A estereoscopia é um fenômeno natural, que ocorre quando vemos duas imagens em ângulos ligeiramente diferentes, que se sobrepõem e geram uma profundidade – sensação de uma visão 3D.  Após anos de pesquisa, os AntiVJ desenvolveram uma série de ferramentas para controlar, ao vivo, um conteúdo estereoscópico. E o resultado pode ser conferido no Stereoscopic Show. Equipado com óculos especiais, o público interage com as imagens que saltam da tela e entra em sincronia com a batida reverberante produzida pelo Principles of Geometry. 

Para quem perdeu, o vídeo abaixo traz alguns momentos do show, além de apresentar algumas percepções da plateia. Mas fica o aviso: essa incrível performance é uma experiência sensorial e só o corpo e olhos humanos são capazes de senti-la plenamente.           

                                                                                                                                                                                                                    – Bruna Acácio

Para conferir mais sobre o Stereoscopic Show:

http://www.myspace.com/principlesofgeometry– “site oficial”  – myspace – da banda Principles of Geometry, onde você pode escutar as músicas da dupla e interagir com os caras – porque eles respondem aos comentários.

http://blog.antivj.com/ – Blog do AntiVJ – Conheça os projetos e até a agenda de shows do  selo visual.

www.artemov.net  – Site oficial do Arte.mov, que traz mais informações sobre a performance que aconteceu em Belo Horizonte.

Consumo

novembro 25, 2009

Entram dias, passam semanas. E a vida continua tal qual é: apressada, tencionada por tarefas e marcada também por esparsos momentos de lazer, descanso. Está certo, o tempo não pára. Por entre as experiências do cotidiano, muitos indivíduos parecem funcionar no modo automático, inconscientemente perpetuando rotinas. Mas, afinal, qual problema há nisso?

Ao transitar superficialmente pela vida, as pessoas deixam de lado os sentimentos e mesmo as reflexões sobre o mundo e a si mesmas. Dar um off no modo automático significa atentar, principalmente, para os valores difundidos em sociedade e para os comportamentos legitimados por tais valores. E uma das práticas consideradas mais naturais hoje é a compra.

Rappers norte-americanos: ostentação de fortunas.

Pagar para adquirir, para tomar posse de uma coisa. Mais do que isso, o comprar tem ligação intrínseca com o status social. O sujeito que tem muito dinheiro é vangloriado socialmente pela ostentação das suas compras. Um exemplo bem expressivo disso é o conjunto de produções do atual hip hop norte-americano. Os rappers – sempre usando jóias, relógios, roupas e calçados caríssimos – dirigem carrões e fazem questão de cantar as suas fortunas. Ricos e, consequentemente, rodeados de mulheres. A posse de bens desdobra-se em poder sexual.

Carrie. A protagonista de "Sex in the City" e suas inseparáveis compras.

Não só nos clipes musicais é possível se observar essa exaltação do consumo. Algumas atrações televisivas como o famoso seriado Sex in the City (http://www.hbo.com/city/), tratam da temática de maneira leve e despretensiosa. Comprar é chic, relaxante e ainda auxilia na produção do belo. O ato de comprar é prazeroso justamente porque resulta em status e, além disso, satisfaz momentaneamente carências, como fica claro nos episódios do seriado. Terminou com o namorado? Compras. Quer “arrasar” naquela festa? Compras. Está entediada? Compras.

Mas quais valores embasam esse culto ao consumo? É fato que o liberalismo conectado ao modelo capitalista é, em última instância, o elemento que fomenta a valorização do prazer individual. Para além da diabolização do “sistema”, é interessante olhar para as vivências diárias e problematizar mesmo os comportamentos mais espontâneos. Como ir ao shopping. Um ambiente comercial e estritamente de entretenimento pode revelar muitas facetas desse consumismo impregnado no dia-a-dia.(http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=113941)

O vídeo a seguir trata disso.

“Melódica e Poética”

novembro 12, 2009

 

Midani

Midani no Eletronika: palavras nostálgicas sobre a música

Essas são as características essenciais de uma boa música, de acordo com André  Midani, um dos nomes mais importantes da indústria fonográfica brasileira dos anos 60 aos 90. Midani participou do festival Eletronika, onde realizou uma palestra sobre a história da música e suas perspectivas para o futuro.

A música sempre foi fonte de inspiração para idéias e comportamentos. Ao longo da História as canções embalaram várias lutas. Seja nos acordes psicodélicos do movimento hippie ou nas letras de protesto contra a ditadura militar brasileira, é fácil perceber o quanto a música é influente na vida humana. E, hoje mais claramente, no cotidiano dos jovens.

Foi pensando nisso que o intermedia levou a questão tratada por André Midani no Eletronika para alguns desses jovens: o que uma música deve ter para te agradar? E sim, as respostas foram variadas.

A vestibulanda Camila foi categórica: “A música não precisa ter nenhuma característica própria para me agradar”. Segundo ela, todos os estilos são interessantes. Já David, que cursa Filosofia na UFMG, foi rápido e disse a primeira coisa que veio à cabeça, uma resposta bem filosófica: “Não sei resposter a essa pergunta”.

Mas alguns dos entrevistados toparam responder à nossa instigante questão. Foi o caso de Thalita, aluna de Psicologia da UFMG. “O ritmo, no final das contas, é o que toca mais na gente”, afirmou ela.  Dos entrevistados que apontaram características da boa música, Thalita foi a única que deixou de lado o quesito da letra. Janaína, estudante de Ciências Biológicas da federal compactuou, de certa forma, com o que Midani disse no Eletronika. “É preciso uma combinação entre letra e melodia”.  Henrique, aluno de Ciências Sociais da PUC, tirou o fone de mp3 do ouvido para poder responder à nossa entrevista. E sua colocação foi além da típica tensão entre letra e melodia: “ A música deve ser harmoniosa, produto de um sentimento do compositor. Ela também tem que ‘bater’ no ouvinte,  representar algo para ele”.

Para consumir música, muitos jovens já não se prendem ao velho CD. A internet é hoje uma grande disponibilizadora de produtos musicais. O youtube, então, dispensa comentários.

Eletronika: 10 anos agitando o cenário artístico de BH

novembro 12, 2009

 

palco

Luz, luz... testanto, testando

Quem não foi à décima edição Eletronika, nesse último final de semana, perdeu a oportunidade de conferir o importante festival brasileiro de novas tendências musicais e audiovisuais. Desde 1999, o Eletronika abre espaço para reflexões sobre a temática das artes e tecnologias.

Não só isso. O festival engloba novos artistas, que muitas vezes   acabam ganhando destaque nacional e internacional. É o caso do estilista Ronaldo Fraga e do famoso DJ Malboro. Para abrigar tudo isso, o evento prima pela revitalização arquitetônica de Belo Horizonte.

Neste ano, além de debates com grandes personalidades do mercado fonográfico brasileiro e internacional, como André Midani e Laurent Laffargue, o Eletronika contou com workshops de vídeo e áudio e sessões de documentários relacionados à música. E, é claro, muitos shows.

Dezoito bandas nacionais e internacionais marcaram presença no Estação 104, A Obra, Velvet e Deputamadre.  Black Drawing Chalks, a famosa e até então inativa banda belorizontina Virna Lisi, o projet o louge Yubaba, Chucrobillyman, Garotas Suecas, Copacabana Club, a brasileira-estadunidense N.A.S.A, os franceses Rubin Steiner e Anoraak são apenas alguns dos grandes nomes que passarampela última edição do festival .  Quem fala melhor sobre o Eletronika é um de seus idealizadores, Aluizer Malab, entrevistado pelo intermedia.

Confira o áudio da entrevista 

Entrevista Aluizer Malab